quarta-feira, 6 de julho de 2022

Apreciação ao timing do 'agora'


 

Pensar duas vezes antes de reagir é um dos ditos mais ditos e escutados ao longo da vida – de nós para nós, de nós para vós, de ti para nós, de vós para nós. Por muito que escutemos esse dito, vivemos fases em que nos congelamos de pensamento, sentimento e do agora e passamos por ela, fase, sem lhe darmos a verdadeira apreciação, valorização e gratidão. Quiçá, por estarmos a executar sem pensar duas vezes. Se pensássemos duas vezes, viveríamos com mais felicidade e também mais angústia. A verdade, então, que viveríamos mais intensamente – tanto melhor (para felicidade ou agonio).

Inundo-me muitas vezes com o arrependimento de ter passado pela escola como um corredor passa pela meta – talvez eu até o tenha feito de forma mais veloz, cortando etapas. Ainda assim, pensando duas vezes, sou grato pelo que sei, mas agonio-me pelo que ficou por aprender ou que ficou meio aprendido, insaciável. Não raras vezes o instinto me leva a querer voltar à universidade. Pensar duas vezes, especialmente em como é água parada a vida de um universitário, leva-me a não pausar a minha carreira ou fazer o esforço (irreal) de dupla função – profissional e estudante. A conjugação de «inundar» no começo do parágrafo é escolha acertada, pois são muitas as vezes (não só duas) que quero regressar às aulas da professora Carla Brito, qual cápsula do tempo, e recuperar o que podia ter aprendido mais sobre História – especificamente, porque as aulas da professora nunca eram só sobre História.

Sabendo que não há como lhe agradecer o que fez pelo meu conhecimento, pensamento e consciência, livro sim e livro não recordo-me da professora, efeito Pavlov num humano, hipótese do marcador somático Damásico, e carrego-a em pensamento, por Portugal, Espanha, Finlândia ou onde pairem os aviões que apanho. A gloriosa inglória do professor pode ser desconhecidamente saber da marca que pode ter no presente e futuro de um aluno – e não sei se o professor bom é aquele professor que é tão seguro de si mesmo, que apreciando o reconhecimento, não o procura (além daquele educador que tem brio diário no que faz).

Então, pensando duas vezes, aprendi (ainda que deambule entre ativação e congelamento) sobre a apreciação e o timing do agora, com a presença somática do sentimento danoso que é o remorso pela ausência de aproveitamento da partilha de sabedoria. Agora é sempre o timing perfeito para agradecer e apreciar o que se tem, o que se vive, o que se aprende e o que nos ensinam.

Sobre a professora Carla Brito leiam-lhe o espaço diário Estóriasdahistória ou ‘Mais de 150 histórias que te vão deixar de boca aberta… e queixo caído!’ ou ‘D. Sebastião desapareceu em Alcácer do Sal e outras respostas disparatadas nos testes de História’, ambos assinados como Isabel Moreira de Brito (professora, consigo recomendar este último livro sabendo do risco de ter publicada alguma peripécia minha).

 

Roberto Rivelino - Apreciação ao timing do 'agora' - 2022/07/06 - Helsínquia

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Exposição ao acaso - Teixeira de Pascoaes 'Quem sonha é um lar aceso'


 

Saber o quê, onde, quando e porque pisamos alguns pisos é uma noção de consciência de nós para nós próprios. Mas há outras ocasiões em que o melhor é deixar-nos ao acaso, só sabendo porque lá vamos: pela expectativa de conhecer algo novo ou diferente, não nos debruçando demasiado sobre o assunto precisamente para saber sobre ele a partir do zero. Saber mais sobre algo que minutos antes, para nós, era nada dá-nos caso a belas descobertas.

Aconteceu-me recentemente, levado ao Museu Amadeo de Souza-Cardoso (Amarante). Não pelas obras de arte expostas (Paolo Pellegrin, excelente!), sim pelo encontro 'medúseo' e fortuito com um livro-compilação dos aforismos de Teixeira de Pascoaes, autoria de António Cândido Franco. Soado o nome, não é ignorância afirmar o desconhecimento - ignorância, porventura, seria ter pousado o livro e deixado à ignorância. Da estirpe de pensamento sabe-se logo, abrindo em qualquer uma das mais de duzentas páginas, o nível de intelecto – em concordância ou não com as nossas ideias ou características (algo que não deve fazer caso se queremos ser mais amanhã do que somos hoje).

O acaso pode ser mero acaso ou acaso auto infligido, o que não o deixar de ser considerado como acaso, por nos sujeitarmos à exposição, à saída daquilo que damos como adquirido do nosso conhecimento ou do nosso conhecido. Tirar as meias sem sabermos o que vamos calcar, sabendo que calos não havemos de ter, abre novos caminhos a serem calcados para chegar a pegadas recicladas.

De ‘Quem sonha é um lar aceso’, deixo várias passagens que marcam e deixam que pensar:

- «81. A dor é o génio do verbo, a alma da comédia, o combustível da alegria.»

- «46. A frase falada ou gravada na mesma lauda em que fulguram os relâmpagos, é quase sempre mais luminosa que a escrita numa substância que serve para embrulhos…»

- «2. Poesia é a Teologia dos heréticos.»

- «60. O remorso é o penedo a desentranhar-se em ondas de ternura: a fonte.»

- «24. O infinito envolve o espaço, e o tiquetaque do nosso relógio soa no coração da eternidade. Aonde não chega a razão, chega a inspiração.»

- «27. Falar de poesia moderna, ou de poesia antiga, é um absurdo. A poesia é uma essência, não é uma forma. E só as formas mudam. A energia elétrica é invariável; mas o que não tem variado, para melhor, a sua forma luminosa!»

- «30. A graça da inspiração é o ser espiritual mais belo e feminino que habita na caveira humana, o autêntico trono do Senhor. Todavia, a Musa escolhe a caveira dum Virgílio, e não a dum César Augusto.»

- «2. (…) Às vezes, basta um hálito de flor para que uma estrela se acenda na escuridão.»

- «18. As chamas dum incêndio verdadeiro são menos violentas que as chamas dum inferno que não existe.»

- «19. Não é o homem que endoidece. É a loucura que se humaniza. Assim o Verbo se fez Carne.»

- «27. A Criação vem da dor e o seu vestuário é de riso.»

- «41. (…) Justiça sem liberdade goza-a qualquer boi que tenha um bom pensador; liberdade sem justiça gozam-na todos os famintos. Aludo, é evidente, à liberdade espiritual e à justiça económica, sem as quais não haverá paz no mundo.»

- «68. A unidade é um atributo do Nada, uma qualidade do zero.»

Roberto Rivelino - 2022/06/30 – Helsínquia

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Criadores de cultura onde a cultura não existe


 

Podes caminhar caminhos infinitos, parar em paragens infinitas, que o lugar onde foste criado, desenvolvido e revelado estará para sempre no teu ADN. Somos produto daquilo que nos rodeia, então para onde quer que caminhemos, as pegadas terão pitada dos resultados das nossas interações com o local. Não sei o que Alpendorada, Várzea e Torrão tem seria a expressão para vos fazer entender que sei o que Alpendorada, Várzea e Torrão tem: gente de talento. Demoramos cinco segundos para pensar em três (ou mais) pessoas do nosso círculo de amigos que começa no rés do chão a trabalhar e sobe andares, para liderar, em qualquer área: construção civil, ensino, desporto, artes, tecnologia… e damos exemplos de pessoas que caminham e param pelo Porto, Coimbra, Lisboa, Algarve, Suíça, Suécia, Luxemburgo, Canadá, Brasil…

Portanto, acho a pegada desta freguesia muito forte para não deixar em texto aquilo que tenho discutido ao cheiro de um café: Alpendorada, Várzea e Torrão é recheada de talento e ausenta-se-lhe quem o faça brotar, quem o lapide e lhe dê a plataforma para que, nesta terra, se faça cada vez menos aquilo que se tem que fazer e se faça cada vez mais aquilo que se quer fazer. Quem escreve é um jovem adulto que passou e passa por todas estas fases, fez parte de grupos que tentaram dinamizar a cultura local e que, perto ou distante, vê aproximar e afastar nuvens de pensamento e preocupação por um local que lhe é querido.

Sem complicações e com um exemplo prático: desde que foi criado que não me ausento de uma edição dos ‘Concertos que Nunca Existiram’. São criados por amigos que apoiaram e protegeram a minha forma de arte e, mais importante que isso, amigos que quiseram colocar e executar a sua forma de arte onde foram criados, desenvolvidos e revelados: Alpendorada, Várzea e Torrão. O que fizeram? Pediram ajuda a eles próprios antes de procurarem por apoios, foram à força física e mental, ganharam calos nas mãos e transpuseram do papel para a prática a ideia de criar uma Associação sem fins lucrativos, o Rústico Cultura, e atiraram-se para a criação do dito evento. Não me espantou, portanto, ver que o sucesso do evento chegou à Galiza ou à Catalunha – caros, não estou a falar de um local dentro fronteiras, ou para exagerar, imagine-se a si, pegar no carro e ir ver um evento a Barcelona. Problema maior, num ser que é emocional como é o humano, é não espantar reparar que o evento foi feito com a ausência de apoios institucionais de serviço público (aos privados, locais ou não, que o fizeram, o meu aplauso), no único evento desta categoria de Cultura feito, até arrisco, no município.

A ideia do uso expressão «não espantar» é precisamente uma afirmação de orgulho para com aqueles que conseguem fazer isto: pegar na ousadia e coragem, ampliá-la a um nível maior que qualquer ego, e fazer coisas, coisas de futuro, coisas de cultura num lugar onde a cultura, institucionalmente, não existe. A quem tem força para colocar o talento ao dispor da terra e exaltar o nome dela além Douro e Tâmega, o meu aplauso. Este é um texto escrito por alguém que nunca existiu (como tu).

- Roberto Rivelino 


domingo, 11 de março de 2018

David Letterman e Malala Yousafzai: a boa comunicação por vezes é 'quebrar o gelo'

Numa era em que se pode fazer tanto e diversificar sem limites, parecem - os entrevistadores -, quase todos padronizados e agarrados aos nervos que lhes bloqueiam o fluxo das ideias e do à vontade que é preciso ter para este tipo de comunicação.
Felizmente, o Netflix não deixou que esta era respirasse sem a existência de um David Letterman.
Entrando pela retórica e sabendo o quanto a comédia depende da capacidade de comunicação e de comunicar, pergunto. Pode um comediante ser um dos maiores símbolos da comunicação (arrisco), de todos os tempos?
Neste momento que se segue nas próximas linhas, David Letterman 'quebra o gelo' - como fez ao longo de toda a entrevista com Malala Yousafzai no terceiro episódio de "My Next Guest Needs No Introduction with David Letterman", disponível no Netflix -, e faz de uma pergunta inútil, um lance de ar fresco para a segmentação de uma conversa tão indispensável para aquilo que devemos ser para nós, para os outros e para a sociedade.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Do impossível ao possível: a lixeira pública do Tâmega hoje o Parque de Lazer de Alpendorada

Possível - Clique na imagem para ver maior resolução.
Entre os palavrões da Língua Portuguesa que mais se embelezam quando encurtados pelo movimento e querer do Homem a transformação do "Impossível" para "Possível" é o luxo máximo.
Foi há cinco anos que surgiu aqui, no "Os Pés em Portugal. Os Olhos no Mundo", um dos movimentos-mor de um processo de revolução infraestruro-social da vila de Alpendorada e Matos. Hoje denominado Parque de Lazer de Alpendorada, já foi uma lixeira pública que tinha agarrada a si o "imp" a preceder o "possível" de algo bom e positivo, pese a sua posição geográfica.

Veja o artigo e as imagens completas, datadas de 2012.

Recordo-me do dia em que juntei os então líderes de Juventude Socialista e Juventude Social Democrata e os despi das disputas políticas para apelar para a situação que ganhou bastante força na velocidade das redes sociais após o que aqui foi escrito, a vinte de março de 2012. Uma hora depois dessa reunião informal estava a caminho de Benalmádena para a minha viagem de finalistas. Porventura numa época idêntica à que este texto está a ser escrito.

Dessa reunião saíram ideias e mais uma força para quebrar o "não" que existira desde a ideia inicial que surgiu da arquiteta local, Liliana Bouça.

Pouco tempo depois seria selecionado pela Escola Secundária de Alpendorada para ser um dos representantes da instituição na Assembleia Municipal de Jovens onde travei vários momentos de discussão intensa e apaixonada com o autarca Manuel Moreira sobre a vila que me vê crescer. Neste tópico, foi mesmo o palavrão "impossível" a patentear as respostas do autarca, que reconheceu atenção a um jovem de dezassete anos no pico da criatividade e cheio de questões terminadas em "porquê".

Começamos a desfazer o "impossível" e ainda com o mesmo autarca o terreno pertencente à Energias de Portugal - EDP começou a ganhar vida positiva e a perder a energia negativa que então marcava a descrição do seu espaço - conhecido do lixo, das drogas e da prostituição. Transformar-se-ia no que se vai notabilizando: um espaço verde para a prática de Desporto e propício à respiração de harmonia.

Depois de olhar para a terra nadei com os olhos sobre o Rio Tâmega e a capacidade com que os anfíbios do Ginásio Clube de Alpendorada - GCA atacou a potencialidade do espaço. Tornaram possível, também, Alpendorada tornar-se orgulhosa de mais um motivo Desportivo e Social e os vários apelos à Federação Portuguesa de Canoagem - FPC já jorram efeito e não tardará a fazer-se como ponto de referência nacional.

Dúvidas várias sobre a manutenção do espaço, a verdade é que em cinco anos a força das pessoas faz mudar hábitos numa vila repleta de pessoas capazes. Hoje deixei o carro em casa, respirei o mesmo ar que os outros e deixei sair as impurezas do dia anterior, mas antes parei e olhei para longe e pensei: "há cinco anos foi possível."